Introdução





          A idéia deste curso partiu da observação da atitude de muitas pessoas que desperdiçam uma enormidade de dinheiro não apenas em equipamentos dispendiosos, mas também em minilabs com a revelação e copiagem de filmes mal batidos, com imagens desfocadas, tremidas ou simplesmente com péssimo enquadramento. Bem, diria o leitor, que tem o curso a ver com isso? Tem tudo a ver, pois nota-se que o que falta não é um conhecimento especializado de fotografia, mas noções básicas, que podem ser aprendidas em poucas lições, necessitando apenas atenção e dedicação do aprendiz de fotógrafo.

         A linha mestra deste curso básico é a apresentação de conceitos simples, que não exijam de ninguém um conhecimento mais profundo, que não seja o da leitura. Conforme será visto mais à frente, já existem hoje câmeras sofisticadas, capazes de controlar todas as suas funções. Contudo, mesmo um equipamento moderno assim, não corrigirá uma cabeça cortada, ou uma foto tremida, simplesmente por inabilidade ou desconhecimento do usuário.

         Para deixar o blá-blá-blá de lado, vamos iniciar o curso respondendo a três perguntas fundamentais:
 

    1. Porque fazer este curso e o que esperar dele?


          Porque alguém necessitaria de um curso de fotografia? Afinal de contas, hoje em dia as câmeras não são point-and-shoot ( aponte e dispare)? Se tudo é automático, inclusive o foco e o tipo do filme, por que se preocupar com mais nada? 

         Se a pessoa pensar dessa maneira, não deve fazer nada mesmo, a não ser gastar muito dinheiro nos laboratórios e quando precisar pagar uma pequena fortuna a um fotógrafo profissional para fazer algo que ele mesmo poderia fazer. Além disso, suas recordações de viagem continuarão aquele emaranhado de fotos mal batidas e sem nenhuma organização.

        Em que um curso de fotografia poderia ajudar alguém, se já parte do princípio que não é um ensinamento profissional? Será apenas mais um cursinho caça-níqueis, destinado a espoliar os incautos? Vamos imaginar algumas situações possíveis:
 
 

  • Não sei nada de fotografia e não tenho câmera
         Independente de se possuir ou não uma câmera, a pessoa pode aprender as noções básicas da fotografia, que podem ser utilizadas com qualquer tipo de equipamento.
  • Entendo pouco de fotografia e uso apenas uma câmera amadora
         Mesmo neste caso, a pessoa precisa conhecer como enquadrar corretamente, como compor os elementos no visor, evitar elementos estranhos na foto, etc. Além disso, deverá ter noção das limitações de sua câmera e quando deverá ou não usá-la.
  • Entendo pouco de fotografia e possuo uma câmera amadora cheia de recursos
          Como já foi dito, as câmeras auto-qualquer-coisa tem o grave defeito de controlar todos os ajustes, deixando ao usuário apenas o enquadramento. Bem, além de fazer um bom enquadramento, a pessoa pode usar os excelentes recursos que o seu equipamento oferece, bastando para isso decifrar os complicados códigos que aparecem no visor. Esse tipo de câmera permite fotos à contraluz, usar o flash como preenchimento, uso de zoom e muitos outros recursos.
  • Entendo pouco de fotografia e tenho um equipamento profissional
          Neste caso, é importante a pessoa conhecer, além de enquadramento e composição, foco, profundidade de campo, quando usar maior ou menor velocidade, fazer uso de diferentes objetivas, etc.
 

          A idéia foi fazer um curso genérico, onde qualquer uma pessoa enquadrada nas opções acima pode tirar proveito, se não de um equipamento específico, mas até pela troca de experiência com os outros participantes. Este curso só não interessa para um fotógrafo profissional ou um amador muito experiente, pois não verá nada de novo. 
 

 


 
          2. Qual a sua necessidade de fotografia?

         Uma coisa importante em tudo o que se faz na vida é delimitar o que se pretende. Como saber se alcançou algo, se não se sabe onde se quer chegar? Em se tratando de fotografia, a regra também se aplica. Se a sua intenção é simplesmente fotografar os aniversários dos filhos e as viagens de férias, já será um objetivo magnífico, pois isso representa nada menos do que a documentação da vida de uma família. E em certos momentos, como é importante uma recordação destas... Para isso, acredito que essas lições serão suficientes, desde que não se deixe de praticar sempre.

           Pode ser que o seu objetivo vá além disso: dominar um equipamento novo que adquiriu, utilizando-o para obter boas fotos. Como já vimos acima, um equipamento caro não é garantia de bons resultados. Contudo, qualidade tem seu preço, e certamente se for bem utilizada, uma câmera sofisticada trará melhor retorno do que uma descartável. Vale mais uma vez a regra de que, não adianta nada o equipamento caro guardado no armário. A prática só é conquistada com a prática, jamais pela teoria.

          Caso você pense em usar a fotografia como meio principal ou acessório para a sua profissão ( jornalista, arquiteto, perito de seguros ou qualquer outra atividade que necessite de registro de fatos ou situações), essas lições serão o pontapé inicial de que precisa antes de pensar no aperfeiçoamento. Para cada necessidade específica, surgirá a solução correspondente, seja em forma de equipamento, técnica ou aprofundamento teórico. A fotografia pode ter tantas aplicações quanto se queira, desde a documentação de trincas nas pernas de uma plataforma marítima até o registro de fenômenos espaciais.

          Se a sua motivação é a Arte através da fotografia, esse curso será o primeiro passo de uma longa caminhada onde a maior parte do caminho terá que ser definida pelo próprio viajante.

          Mas, antes de se descobrir o que se quer fazer em termos de fotografia, precisamos responder a próxima pergunta:

 

 
        3. O que é fotografia?
 

         Já que vamos estudar o assunto, porque não tentar definir exatamente o objeto de nosso estudo? Uma definição bem simplória seria a de que uma fotografia é uma cópia da realidade. Mas, nesse caso uma pintura e um filme de cinema ou televisão também poderiam ter essa definição. A pintura já teve a função de registrar fatos e rostos, mas essa função foi totalmente absorvida pela fotografia, hoje estando absolutamente ligada à Arte. O filme ou o vídeo registram ações contínuas, e tem uma função específica, necessitando ainda de um veículo apropriado para sua exibição.

         Aproveitando o que falei acima, vemos que a fotografia realmente serve para registrar fatos e rostos. E o que mais? Pode ser Arte? Pode registrar ações, mesmo sendo uma representação estática?

         Para responder a questão da Arte, poderíamos citar a frase de um filme recente, onde ao ser questionado sobre qual era a verdade sobre um crime, o personagem responde que "A Verdade, como a Arte, está nos olhos de quem vê". O valor artístico de um objeto depende da cultura à qual as pessoas estão atreladas, podendo ter diferentes significados e pesos para diferentes grupos. Mas, dificilmente uma foto ruim, tremida ou mal composta será considerada Arte, pois como fala o senso comum, uma obra artística implica em inspiração e transpiração.

         Quanto ao registro de uma ação, talvez aí esteja o valor extremo da fotografia. Apesar de ter sido registrado apenas o que aconteceu em uma fração de segundo, o que vai tornar a foto valiosa será a capacidade de transmitir uma idéia, uma emoção ou uma impressão. A continuidade da ação, o que aconteceu antes e depois do clique, deve estar presente na mente de quem observa, e aí estará a maior ou menor beleza da fotografia.

         Talvez uma das fotos que expresse melhor o que tentei dizer é a que o mais famoso correspondente de guerra, Robert Capa, bateu durante a Revolução Espanhola, do momento exato da morte de um revolucionário. Esta foto teve uma significação especial, pois muito além de documentar uma morte, mostrou pela primeira vez a face cruel e absurda de uma guerra.

 

         A foto ao lado, do mesmo jornalista, foi tirada pouco antes de sua morte ao pisar numa mina na Indochina ( atual Vietnã), em 1954.
 
 

           O mais importante, que qualquer fotógrafo jamais pode se esquecer, é de que ele é um contador de histórias que não usa palavras, seja para falar de uma simples festa de aniversário, seja para denunciar o drama apocalíptico e genocida de uma guerra.